Mais do que fé e espiritualidade, esses lugares também são atrativos culturais e históricos. Conhecer esses templos e santuários, portanto, é uma maneira muito especial de mergulhar na história do Japão e tentar entender por que sua cultura desperta um fascínio que atravessa fronteiras e gerações
Texto: Gilberto Yoshinaga/Especial para o MP – @gilyoshinaga
Fotos: @JNTO
Religiões predominantes no Japão, o xintoísmo e o budismo convivem de forma harmoniosa e costumam ser praticados simultaneamente por boa parte da população. Por conta disso, em qualquer parte do país, não é difícil se deparar com templos e santuários – estima-se que, ao todo, existam cerca de 100 mil sítios xintoístas e 80 mil budistas, espalhados pelas 47 províncias do arquipélago.
Mais do que fé e espiritualidade, esses lugares também são atrativos culturais e históricos, já que muitos deles, bem como inúmeros festivais e celebrações, são preservados e perpetuados há muitos séculos – alguns, há mais de 1.500 anos.
Conhecer esses templos e santuários, portanto,
é uma maneira muito especial de mergulhar na história do Japão e tentar entender por que sua cultura desperta um fascínio que atravessa fronteiras e gerações.
Um destaque à parte dessas construções são os traços arquitetônicos, com cores e formas únicas, além de serem marcados pelo uso de materiais naturais e por se relacionarem de forma harmônica com a natureza. Soma-se a isso o significado histórico de muitos desses templos e santuários, alguns dos quais envolvem símbolos sagrados milenares e até mesmo se relacionam a episódios da mitologia nipônica.
A missão não foi fácil, mas selecionamos 10 templos e santuários que, de alguma forma, merecem entrar no roteiro de quem possa ter a oportunidade de conhecer diferentes províncias do Japão.

1. Ise (Mie)
Essa lista se inicia não com a indicação de um único templo, mas sim do maior e um dos mais importantes complexos xintoístas do Japão. É na cidade de Ise (Mie) que se localiza o imenso Ise Jingu, composto por 123 templos – 91 situados no chamado Naiku (“santuário interno”, em tradução livre) e 32 em Geku (“santuário externo”).
Horário: o Ise Jingu recebe visitantes das 5h às 18h
Ingresso: livre
Acesso: as rochas casadas Meoto-Iwa ficam a 1,3 km da estação Futamino-Ura de trem (15 minutos de caminhada); o santuário Ise-Jingu fica a cerca de 4 km da estação de trem Ujiyamada, de onde partem ônibus para o local – percurso que dura cerca de 13 minutos e custa 330 ienes
Mais informações: telefone 0596-65-6091 (das 9h às 17h30) ou pelo site oficial da Associação de Turismo da cidade

Em um desses templos, cujo acesso é proibido para o público, está depositado um dos três tesouros sagrados do Japão: o Espelho Sagrado que, de acordo com a mitologia japonesa, foi pendurado em uma árvore para atrair Amaterasu, a “deusa do Sol”, de uma caverna. Dela, diz-se, descende a Família Imperial – uma história milenar. Em Ise, tudo gira em torno do complexo Ise Jingu. Inclusive, o comércio local, muito voltado para o turismo, é repleto de construções de madeira com traços arquitetônicos que remetem aos dos templos. O ponto de partida para a peregrinação pela cidade costuma se iniciar por Meoto-Iwa (foto), as “rochas casadas”. A maior delas representa o marido e a menor, a esposa. Ambas são conectadas por uma corda (shimenawa) que atua como a divisão entre os reinos espiritual e terreno. Com sorte, a depender do clima, turistas conseguem capturar uma imagem de Meoto-Iwa com o sol nascendo entre as duas rochas e a silhueta do Monte Fuji ao longe. Dica: reserve pelo menos um dia para conhecer os principais templos de Ise com profundidade.
2. Nikko (Tochigi)
Assim como Ise (Mie), a cidade de Nikko (Tochigi) também é uma ótima oportunidade para ter contato com parte da história do Japão e conhecer muitos templos e santuários em uma só viagem. A depender da época do ano, a economia local gira basicamente em torno do turismo, com forte presença de estrangeiros.

A cidade cresceu e se desenvolveu em torno do templo budista Nikkosan Rinnoji, fundado no ano 766, e possui um complexo em que santuários xintoístas e templos budistas convivem harmoniosamente. Um dos mais visitados é o santuário Toushougu, onde estão esculpidos os mundialmente famosos três macacos do provérbio “mizaru, kikazaru, iwazaru” – cuja tradução mais fidedigna seria algo como “não ver o mal, não ouvir o mal, não falar o mal”. Uma dica para aproveitar bem o passeio e conseguir percorrer os principais atrativos da cidade é ir de carro. Afinal, o templo budista Chuzenji (foto) e o santuário xintoísta Nikko Futarasan, que ficam à beira do belo lago Chuzenji, recomendações imperdíveis para quem visita a região, ficam a 20 km do centro da cidade.
Horário: cada atração pode possuir horários distintos; portanto, recomenda-se consultar a associação de turismo da cidade (contatos abaixo), de acordo com os locais que se deseje visitar
Ingresso: livre
Acesso: próxima aos principais templos e santuários, a estação de trem Tōbu-nikkō fica a cerca de 20 km do lago Chuzenji – por isso, o mais recomendável para aproveitar bem o passeio é ir de carro (há ônibus que faz o percurso em cerca de 45 minutos e custa 1,3 mil ienes)
Mais informações: telefone 0288-22-1525 ou pelo site da associação de turismo de Nikko


3. Fushimi Inari Taisha (Quioto)
Antiga capital do Japão por mais de mil anos (de 794 a 1868), Quioto também está repleta de importantes templos e santuários muito procurados pelos turistas. Entre os mais conhecidos estão o Kinkakuji (“templo de ouro”), o Ginkakuji (“templo de prata”) e o Kiyomizu-dera.
Horário: aberto 24 horas
Ingresso: livre
Acesso: a 350 metros da estação de trem Inari (5 minutos de caminhada)
Mais informações: telefone 075-641-7331 ou pelo site oficial do santuário

Mas nossa recomendação, aqui, é o Fushimi Inari Taisha, conhecido por possuir um corredor com diversos toris (portais tradicionais japoneses que simbolizam a transição entre espaços mundano e sagrado). Situado na base da montanha Inari, o santuário xintoísta possui trilhas, montanha acima, para santuários menores ao longo de quatro quilômetros – caminho percorrido, em média, em cerca de duas horas. Suas primeiras fundações datam do século VIII, mas o prédio principal foi erguido em 1499. O Fushimi Inari é a “matriz” de outros 30 mil sub-templos, relacionados a ele, que estão espalhados pelo Japão. Quem não gosta de “muvuca” deve evitar o local nos três dias do Ano Novo, período em que costumam passar por lá mais de 2,5 milhões de visitantes.
4. Kousanji (Hiroshima)
O templo budista Kousanji foi fundado em 1936 pelo abastado industrial Kozo Kousanji, em homenagem a sua falecida mãe. Construído ao longo de três décadas, o sítio em que ele se situa fica na ilha de Ikuchi, em Onomichi (Hiroshima) – o que faz com que o próprio percurso até ele já seja um agradável passeio.

Além do templo, o complexo possui um museu com toda a coleção de mais de duas mil valiosas obras de arte que pertenciam a seu fundador; e a chamada Vila Choseikaku, uma suntuosa residência híbrida de estilos japonês e ocidental, construída em 1927 por Kozo Kousanji para ser o retiro privado de sua mãe. Também no local, vale a pena conhecer o Miraishin no Oka (“colina da esperança”, em tradução livre), um jardim com mais de 5 mil metros quadrados inaugurado em outubro de 2000. Nele, em harmonia com a natureza, há 3 mil toneladas de mármore de Carrara e pequenos e grandes monumentos que representam a esperança em um mundo mais pacífico.
Horário: das 9h às 17h (entrada permitida até as 16h30)
Ingresso: grátis para crianças e estudantes do ensino fundamental; mil ienes para estudantes do ensino médio e universitários; e 1,4 mil ienes para demais adultos
Acesso: da estação de trem Mihara, há uma embarcação até o local, que fica na ilha Ikuchi – percurso de 14 km que dura cerca de 30 minutos e custa 920 ienes
Mais informações: telefone 0845-27-0800 ou pelo site oficial do templo


5. Naritasan Shinshoji (Chiba)
Localizado em Narita (Chiba), o templo budista Naritasan Shinshoji foi fundado no ano de 940 e costuma ser bastante visitado por lutadores de sumô, artistas e outras celebridades japonesas, sobretudo durante o Festival Setsubun, em fevereiro. Este templo é parte de um complexo maior, que também inclui um museu de caligrafia japonesa (shodo).
Horário: o parque e outras áreas externas têm horário livre; o acesso ao templo é permitido das 10h às 15h30 (entrada permitida até as 15h)
Ingresso: livre
Acesso: o templo fica a cerca de 1,5 km da estação de trem Keisei-Narita (20 minutos de caminhada ou 14 minutos de ônibus, percurso que custa 160 ienes)
Mais informações: telefone 0476-22-2111 ou pelo site oficial do templo
Mas a maior parte do terreno é ocupada pelo extenso Parque Naritasan (com mais de 165 mil metros quadrados, ou 3,5 vezes o tamanho do estádio Tokyo Dome), repleto de áreas verdes alternadas por uma cachoeira, lagoas, muitas flores sazonais e monumentos de pedra com poemas japoneses (haicais). O parque emana paz e é tão grande que é possível “se perder” nele – portanto, para aproveitar melhor o passeio, há percursos recomendados para os visitantes. Ele fica aberto 24 horas, mas não possui iluminação noturna. Muito visitado nas quatro estações do ano, o complexo possui um calendário de festivais que atraem centenas de milhares de turistas. Os três primeiros dias do ano também não são recomendados para quem não gosta de aglomerações – nesse período, o templo recebe cerca de 3 milhões de visitantes.

6. Natadera (Ishikawa)
Com falésias e cavernas moldadas por erupções vulcânicas e erodidas pelas correntes marítimas, as formações rochosas do local, localizado em Komatsu (Ishikawa), são consideradas sagradas há mais de 2.000 anos. Construído em harmonia com as cavernas naturais, o templo budista Natadera possui 1.306 anos de existência.

Até mesmo por estar em um cenário natural privilegiado e muito peculiar, com florestas cobertas de musgo e jardins de estilo tradicional com lagoas cheias de carpas, ele é bastante visitado em todas as estações do ano. Uma curiosidade é a incorporação, em sua construção, de elementos arquitetônicos não budistas, incluindo os portões tori comuns em santuários xintoístas – sincretismo que simboliza a própria espiritualidade da maior parte do povo japonês. Um dos destaques é uma estátua da deusa Kannon de 7,8 metros de altura, cercada por azulejos de porcelana Kutani.
Horário: das 9h15 às 16h (entrada permitida até as 15h30)
Ingresso: grátis para crianças com menos de 7 anos; 300 ienes para crianças de 7 a 12 anos; e 600 ienes para pessoas a partir dos 13 anos
Acesso: o templo fica a cerca de 5 km da estação de trem Awazu, de onde partem ônibus para o local – percurso que dura cerca de 17 minutos e custa 340 ienes
Mais informações: telefone ou pelo site oficial do templo


7. Hiro-Hachiman (Wakayama)
A história do santuário xintoísta Hiro-Hachiman, localizado em Hirokawa (Wakayama), não é muito bem documentada. Ele foi inicialmente fundado na antiga província de Kawachi (atual porção leste de Osaka), na época do imperador Kinmei, que reinou entre os anos de 539 e 571.
Horário: aberto 24 horas
Ingresso: livre
Acesso: o santuário fica a cerca de 8,6 km da estação de trem Kii-Katsuura, de onde partem ônibus para o local – percurso que dura cerca de 35 minutos e custa 630 ienes
Mais informações: telefone 0737-63-5731 ou pelo site oficial do santuário
Só cerca de mil anos depois, no chamado Período Muromachi (1336 a 1573), é que ele foi transferido para o local atual, que fica junto às cataratas de Nachi – a mais alta queda d’água do Japão. Diferentemente da maioria dos santuários, o Hiro-Hachiman não possui um salão de adoração: as orações são feitas de frente para a cachoeira, em um espaço acima do santuário principal, onde há privilegiada vista para as cataratas.

8. Santuário Yutoku Inari (Saga)
Construído em 1687 na cidade de Kashima (Saga), este santuário xintoísta é um dos três mais famosos dedicados à divindade Inari Okami – juntamente com o Toyokawa Inari, de Toyokawa (Aichi); e o Fushimi Inari Taisha, de Quioto, já comentado no número 3 desta lista.

Grande atração turística da província de Saga, o Yutoku Inari recebe mais de três milhões de visitantes por ano. No sítio, um belo jardim tradicional japonês com várias espécies de flores sazonais oferece diferentes paisagens em cada estação do ano. Ao lado e bem perto do santuário, separado apenas pelo rio Hama, há o Museu Yutoku, que exibe artigos históricos, religiosos, artísticos e folclóricos – que vão de armaduras e capacetes antigos a espadas artísticas, cerâmicas, pinturas e tecidos decorados, entre outros.
Mais informações: telefone 0954-62-2151 ou pelo site oficial do santuário
Horário: santuário aberto 24 horas; o museu funciona das 9h às 16h30 (entrada permitida até as 16h)
Ingresso: acesso livre ao santuário e aos espaços abertos; o museu cobra entrada de 100 ienes para crianças e adolescentes de até 15 anos; 200 ienes para estudantes do ensino médio e universitários; e 300 ienes para os demais adultos
Acesso: o santuário fica a cerca de 2,9 km da estação de trem Hizen-Hama, de onde partem ônibus para o local – percurso que dura cerca de 17 minutos e custa 160 ienes


9. Akama Jingu (Yamaguchi)
Situado à beira-mar do estreito de Kanmon, no centro de Shimonoseki (Yamaguchi), este santuário xintoísta é dedicado a Antoku, imperador japonês que morreu quando ainda era criança no episódio conhecido como Batalha de Dannoura, que pôs fim à Guerra Genpei (1180-1185).
Horário: das 9h às 17h (entrada permitida até 16h30)
Ingresso: livre
Acesso: o santuário fica a cerca de 2,9 km da estação de trem Shimonoseki, de onde partem ônibus para o local – percurso que dura cerca de 10 minutos e custa 230 ienes
Mais informações: telefone 083-231-4138 ou pelo site oficial do santuário
As cores e o estilo do portão, que chamam a atenção de longe, são inspirados no Ryugu-jo – palácio subaquático mitológico que seria a morada do deus dragão do mar. Isso porque registros históricos indicam que Antoku morreu no colo de sua avó Nii-no-Ama, que teria pulado no mar após afirmar que ambos iriam para um palácio submarino. O calendário do santuário – que foi fundado em 1191 – possui eventos durante todo o ano. O principal deles, o festival Sentei, é celebrado todos os anos no dia 3 de maio. Muitas tradições e ritos religiosos e culturais são preservados ao longo de vários séculos. O local fica iluminado durante a noite.

10. Naminoue (Okinawa)
Nem só de praias paradisíacas se faz a fama turística de Okinawa, a “Fernando de Noronha japonesa”. Reino independente entre os séculos XV e XIX (quando o então reino de Ryukyu foi anexado ao Japão, em 1872), o conjunto de mais de 150 ilhas localizado no extremo sul do arquipélago, em zona de clima subtropical, é separado das principais ilhas nipônicas por mais de 800 quilômetros.

Essa distância, que favoreceu mais intercâmbios e influências da China e das duas Coreias, faz com que, além dos atributos geográficos, Okinawa também possua história e cultura muito peculiares. Esse contexto diferenciado também deu características muito próprias à espiritualidade e à arquitetura dos castelos e sítios históricos localizados por lá. Um dos mais singulares – e o mais importante dos oito principais santuários xintoístas do antigo reino de Ryukyu – é o Naminoue, localizado no topo de um penhasco em Naha, capital da província. Fundado em 1367, mais que uma vista espetacular para o tom azul-esverdeado das águas okinawanas, o santuário de Naminoue é um bom ponto de partida para quem deseja “mergulhar”, também, na rica e fascinante cultura local.
Horário: das 9h às 17h (entrada permitida até 16h30)
Ingresso: livre
Acesso: a cerca de 1,1 km da estação de monotrilho Asahibashi (15 minutos de caminhada)
Mais informações: telefone 098-868-3697 ou pelo site oficial do santuário

